Caminhar-Conversar com Centro e Benfica

Olhar, tocar e manusear; cheirar e coletar; demorar-se num lugar; brincar, transgredir e performar. Caminhar-conversar, proposto por Artur Dória e João Miguel Lima, foi um convite a experimentar com a cidade e compartilhar em caminhada coisas e situações disparadoras de poética de criação artística.

Realizado na manhã de 26 de outubro de 2016, a convite da professora Deisimer Gorczevski, o encontro se deu na disciplina de Tópicos V - Processos de Criação e Micropolítica Urbana, do Mestrado em Artes da Universidade Federal do Ceará, uma turma composta por estudantes artistas|pesquisadores do Brasil e de outros países da América Latina.

No caminhar-conversar

Partindo da Escola Vila das Artes, no Centro, o grupo atravessou a rua General Sampaio, com o convite de experimentar a Praça da Bandeira por cerca de meia hora: seguir o que chama atenção, coletar objetos, conversar e trazer histórias para o grupo.

No momento de partilha, Jessica mostrou uma flor, Deisimer trouxe um folha-casulo de uma árvore, que lhe trazia reminiscências da infância; Nataska tinha pego uma estrutura de madeira e nela escreveu palavras de conversas que teve com outros transeuntes da praça; Artur trouxe um capacete remendado que encontrou; João tinha na mão uma pequena folha seca colorida. Ceci e Felipe, Rey e Valeria, Raul e Virna não portavam coisas, mas histórias e conversas que tiveram entre si e com pessoas da praça – algumas delas amigáveis, e outros encontros menos amistosos. Uma das duplas foi abordada por agentes municipais de segurança no momento em que usava pedrinhas para riscar uma mureta branca. Frente às ameaças dos agentes, a dupla teve de apagar os riscos com a água que levava em garrafas e justificar que eram estudantes numa atividade da universidade.

A situação disparou um debate no chão da praça sobre os atravessamentos de gênero e cor/raça, que interferem no caminhar e na pesquisa em artes, as interdições institucionais e as intervenções de arte urbana, bem como o lugar de poder que a universidade ocupa.

De pé novamente, os participantes seguiram do Centro para o bairro Benfica, com paradas para colher folhas secas, frutos e carvão, criando arranjos em postes e muros, já sob o sol (e com o suor) de quase meio-dia. As sombras das árvores, os chapéus e as sombrinhas foram aliados nesse caminhar.

Um pedaço de muro chamou atenção: o Cantinho [pintado] da erva [grafitado], que estava cheio de folhas secas no chão. E tornou-se espaço de ornamento, onde foram deixadas as folhas e também os galhos colhidos na caminhada, e de performance, com Artur de pés descalços. Uma sombrinha quebrada também foi posta sobre uma motocicleta que pegava sol.

A caminhada seguiu até uma sala de aula do Centro de Humanidades, onde Artur e João Miguel apresentaram imagens e vídeos dos processos de suas investigações.

Para a disciplina de Processos de Criação e Micropolítica Urbana, a professora Deisimer propôs a leitura do livro Walkscapes: o caminhar como prática estética, de Francesco Careri, e dos artigos Andando na Cidade, de Michel de Certeau, e Paisagem Urbana, de Wim Wenders. Também foi indicada a leitura da introdução da dissertação de Ethel de Paula, intitulada A vida esculpida com os pés: memórias inacabadas de um poeta-andarilho, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UFRJ (2015). De forma complementar, Artur propôs também a leitura do texto Andar a Pé, de Henry David Thoreau, que pode ser encontrado online

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Proponentes

Artur Dória é mestre em Artes pelo ICA|UFC, autor da dissertação Paisagens Caminhantes, sob orientação da professora Walmeri Ribeiro. Formado em Jornalismo pela UFC (2011), tem desenvolvido experiências nas artes, com ênfase em performance, corpo, cidade e intervenção urbana.  Caminhar se tornou seu método de pesquisa|criação.

No vídeo abaixo, podemos acompanhar Artur em uma de suas caminhadas pelas ruas de Fortaleza, em 2015, vestindo uma roupa confeccionada especificamente para coletar garrafas de água mineral encontradas no chão. 

https://www.youtube.com/watch?v=0Cu1k6EWM3w 

João Miguel Lima é mestre em Sociologia e pesquisador do Lamur, onde desenvolveu a proposição Entre árvores e sombra, entre plantas e folhas secas (2015-2019), em experimentações do “direito à sombra”, fotografias de plantas “ocupadeiras” e inventos com folhas secas coletadas na rua, tendo o caminhar com a cidade como parte do processo.

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Fotografias de Ceci Shiki, Deisimer Gorczevski e João Miguel Lima, no acervo do Lamur (2016).

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