ConversAções

#Praia do Vizinho
abril/2018

“(...) O ConversAções na Praia do Vizinho¹ foi uma realização conjunta do LAMUR, da Associação dos Moradores do Titanzinho, do Coletivo AudioVisual do Titanzinho, do Cine Ser Ver Luz e do Projeto de Vida, do Instituto Trêsmares, em 17 de abril de 2018. 

A Praia do Vizinho é uma das praias do bairro Serviluz que, segundo a divisão político-administrativa municipal, não existe como tal. Com o nome escolhido pelos moradores, migrantes e pescadores, tecido por memórias e histórias de vida de diferentes gerações que, ao longo dos anos, ocuparam a região, o Serviluz está inserido tanto no bairro Cais do Porto como no Vicente Pinzón. Ou seja, por estar entre dois bairros, não tem seu nome reconhecido oficialmente no mapa da cidade. No entanto, além de ter sua existência afirmada e construída com sentido de um “pertencimento ativo” da população, o bairro tem subdivisões territoriais, reunindo moradores da Estiva, Favela do Farol, Titanzinho e Vizinho. 

A praia do Vizinho, situada ao longo da Rua Pontamar e a barlamar do espigão da Praia do Titanzinho, compreende uma faixa extensa de mar, onde ocorre retenção de areia em decorrência dos fortes ventos e do transporte eólico de sedimentos, desde a praia para o interior, em alguns períodos do ano, causando soterramento das vias e, mais ainda, invadindo as casas e interferindo na já precária infraestrutura do bairro. Considerada Área de Preservação Permanente (APP), logo, de uso muito restrito e sem qualquer degradação da biota, a Praia do Vizinho sofre com o descaso do poder público e a ausência de políticas ambientais, sendo urgente atenção às demandas dos moradores por contenção das areias e dunas móveis, flora quase inexistente e a fauna que ainda resiste, oferecendo diferentes espécies de peixes, sem falar da necessidade de proteção à desova das tartarugas. Como nos sugere Lima (2019: 73), em escrita apresentada na Sessão Peixinho, do Cine Ser Ver Luz, realizada na Rua Pontamar: “Talvez a gente nunca saiba na pele o que é ser um peixe, uma nuvem ou um inseto, mas podemos aprender as histórias de como vivem no planeta - nossa grande vizinhança.”

 O bairro Serviluz e suas praias Titanzinho e Vizinho, em Fortaleza, não estão na rota de visita ou mesmo no percurso cotidiano da cidade, também por serem territórios que se configuram como “ilhas urbanas (...) onde conhecer implica a vontade e a decisão de ir cruzando as linhas de segregação e inventando percursos de conexão, por exemplo, com as potencialidades dos fazeres e saberes artísticos e comunicacionais” (Gorczevski; Soares, 2015: 200), que podemos ver nas ações que a Associação de Moradores, o Coletivo AudioVisual do Titanzinho e o LAMUR realizam, em aliança, convidando moradores, estudantes, artistas e pesquisadores, entre elas, o ConversAções na Praia do Vizinho, aqui apresentado. 16 A ocupação data de assentamentos que ocorreram no fim da década de 1940 e início da década de 1950, primeiros anos da construção do Porto do Mucuripe, que durou duas décadas, tendo crescido, na década de 70, com a transferência de famílias que sofreram remoção de uma praia localizada nas proximidades (Nogueira, 2007; 2015).

As convidadas Fabíola Gomes, Iara Andrade, Nataska Conrado – instigadas por Deisimer Gorczevski – partilharam suas pesquisas, aventuras, invenções e experiências com o território do Titanzinho, com o Serviluz, com Fortaleza. Fabíola Gomes (2017) apresentou “AudioVisuais que inventam o bairro: o Serviluz que insiste em fazer sua história”, uma análise de três vídeos produzidos com o Serviluz que trazem à tona memórias e modos de vida de moradores, uma política de amizade e as ambíguas relações com a cidade. Essa pesquisa resultou em seu trabalho de conclusão do curso de Cinema e Audiovisual na Universidade Federal do Ceará. Fabíola é também graduada em Letras/Francês e integra o Coletivo AudioVisual do Titanzinho e a Associação de Moradores do Titanzinho. Em “Me organizando posso desorganizar: Associação de Moradores do Titanzinho”, a psicóloga Iara Andrade compartilhou uma proposta de apresentação da história e dos objetivos da associação para novos integrantes, fruto do trabalho coletivo de conclusão do curso de especialização em Psicologia Organizacional e do Trabalho, na Universidade de Fortaleza. Iara também atua no bairro com o Projeto de Vida. Nataska Conrado, graduada em Comunicação Social e especialista em Jornalismo e Crítica Cultural, apresentou sua pesquisa “O avesso da caverna com a nuca do cinema”, defendida no PPGArtes|UFC17, em que discute o cinema de rua como acontecimento de encontro e partilhas sensíveis, aproximando o Cine Ser Ver Luz, realizado com as ruas do Serviluz, com experiências de coletivos cineclubistas de outras cidades, como o Acenda uma Vela | Cine Jangada, Cineclube Ideário e o Tela Tudo Clube de Cinema. 

Processos entre pesquisar e intervir que, como apresentaram as três convidadas na divulgação desse ConversAções, dão-se: 

[...] com territórios afetivos, com amigos, com moradores e visitantes. Com audiovisuais e cinemas que inventam associações, bairros e cidades. Com um fim de tarde feito com céu de nuvens velozes a correrem para o continente nos dando uma noite com as estrelas. Com uma rede de dormir como tela. Com uma fogueira para aquecer os corpos em meio ao ventinho frio na beira do mar. Com o barulhinho das ondas e das crianças a brincarem entre o breu e a luz. 

 

Artes de intervenção que se movem e se afirmam com as vontades de criar, fazer e viver momentos de partilha, com a sensação de que criamos todos juntos, com nosso encontro, outra dimensão. (...)”

 

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¹ Texto de apresentação do ConversAÇÕES compõem o artigo de autoria de Deisimer Gorczevski, Aline Albuquerque e João Miguel Diógenes de Araújo Lima publicado na Revista Iluminuras, Porto Alegre, v. 22, n. 56, p. 23-53, junho, 2021. Mais detalhes estão disponível em: https://seer.ufrgs.br/iluminuras/article/view/112374/pdf

Fotografias: Deisimer Gorczevski, Fabíola Gomes, Iara Andrade e Rafael Brasileiro.

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ConversAções é um convite ao encontro com IntenCidades que tomam corpo, inventam afetos que se efetuam em matérias de expressão. Esta edição foi uma realização do Laboratório Artes e Micropolíticas Urbanas (LAMUR), da Associação dos Moradores do Titanzinho, do Coletivo AudioVisual do Titanzinho, do Cine Ser Ver Luz e do Projeto de Vida.

 

Mais informações – entre elas, títulos e resumos das pesquisas apresentadas, além dos minicurrículos das pesquisadoras – disponível em: https://goo.gl/nJQr6p.

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